Segunda-feira, Maio 25, 2009

Gentílico colatinense.

Chegamos. Tarde quente. Janeiro. Mormaço. Os raios do impenitente sol reverberavam à pista da grande ponte esticada pelos oitocentos metros que unem os dois lados da cidade. Meu pai trouxe um sonho de dias melhores, partilhado com toda a família, e também o rádio, um dos seus poucos entretenimentos. Estávamos todos como crianças, embevecidos com o lugar e com a possibilidade de tomarmos coca-colas geladas, toda a semana.

Pelo lado norte, por onde chegamos, vim saber anos mais tarde, tivera o nome de Francilvânia. Fora comunidade liderada por tal senhor França, um engenheiro que demarcara a sua colônia entre a barra de dois rios, comunidade que não vingaria aos ataques dos Botocudos – índios que resistiram tenazmente à invasão ao seu habitat natural. Mas a semente da cidade estava irremediavelmente plantada e os Botocudos logo seriam dizimados e reduzidos a relatos sobre índios perigosos e a
gravuras, como as de Jean Baptiste Debret, que afirmavam a "condição miserável e cruel, e a insensibilidade dos indígenas para concorrer na melhoria da humanidade". Não importava mais o que se passou, Francilvânia semente, floresceu o bairro São Silvano – certamente que não sem muita luta de seu povo – para compor a parte norte da cidade.

Guardo tão bem comigo os detalhes mínimos da nossa chegada àquela cidade. O Rio Doce manso a um todo sol, a ponte Florentino Ávidos dando passagem a apressados Opalas Comodoro, aos Dodges, aos Fiats 147, às Brasílias, às Variants, aos Fuscas... As placas nos bares anunciavam Cola-Cola e
Graphete. Das fotografias daquele dia, a mais perfeita na lembrança foi a do Cristo, de braços completamente abertos, posto em estátua branca, de corpo inteiro, com mais de trinta metros, cravado no cimo do morro do lado sul – era aquilo um prato cheio para alimentar a nossa esperança para com aquela cidade e com o novo ano de setenta e sete. Era certo que amanheceriam dias dourados.

O tempo passou e até somos felizes...

É lógico que a vida em qualquer lugar do mundo é com todo o chão à nossa volta, coberto ou não de areia, é uma arena que desprende grãos aos ventos revoltos, e se quisermos continuar a enxergar lirismos – e é bem certo – faz-se necessário muitas vezes fecharmos os olhos num raio de muitos metros para que não se cegue o coração. Só então os ombros sentem mais leve o fardo – até nos entardeceres.

Assim, daquele ano de setenta e sete em que meu pai ouvia em seu motorádio a canção “Marcas do Que Se Foi” - dali em diante aquela cidade de nome engraçado, que é a princesa do norte capixaba, fortificou-se demasiadamente em mim, e por mais que ande pelo mundo afora, conheça as capitais e seus faustos, e mesmo que nem goste tanto mais de cola-cola, quando chego pela BR 259, ao avistar as águas do Rio Doce, tenho em mim a deleitosa sensação de não ser despovoado comigo, porque o meu encantamento é de primeiro grau por esse rio, por essa cidade, por essa gente, por essa vida.


Com vocês, meu amigo Zé Geraldo: Música, Rio Doce


Zé Geraldo - Rio Doce

Terça-feira, Março 17, 2009

Um homem qualquer


"Felicidade se acha é em horinhas de descuido."
Guimarães Rosa


O homem estava de olhos perdidos na tela do computador, viu que era preciso espairecer lá fora, por corredores e pátios afora. Saiu. O estupor de calor que sentiu quando deixou pra trás a sala refrigerada não arrefecia a espécie de dor que congelava a sua alma e quase o paralisava. Viu uns e outros e esboçava um sorriso obrigatório. Tudo pesava as medida de uma grande angústia.


A mulher que cuidava de fazer limpeza do corredor – tudo indicava ser sua amiga – pediu-lhe um abraço. Abraçaram-se incomum. Ele se apertava às carnes fofas dela longamente. Falaram-se. Ela contou-lhe de câncer e de enterros e do fardo de doenças e falou também de gente impiedosa.  Ele foi ouvidos. Disse apenas que era a vontade de Deus. “Ele sabe o que faz”. Ela assentiu e agradeceu pelo abraço. Ele continuou pátio afora padecendo dos infortúnios do desamor, sentindo-se numa ilha distante e fria, mas bem nos trópicos, no coração do país. Viu ao longe o que pareceu uma garça voando alta e placenta rio abaixo, acima do ângulo de visão que seus olhos estiveram naquela tarde - era de uma brancura que ele pensara que nunca vira antes. Ele nem percebeu que no voo da garça havia um céu plúmbeo ao fundo. A garça voava num dia sem sol.


O Homem viu graça na sua dor emocional. Ele era um homem qualquer!


Radiohead - No surprises


Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

Andando por sobre as águas.

Enquanto teve fé, Pedro andou por sobre as águas. (Mt 14: 28~30)

Quarta de cinzas. Tudo aqui é agora um vazio de carnaval. A única sombra ou resquício de folia, se assim pode-se dizer, é o palanque, ainda cravado, próximo à praia, onde eram os shows, a espera do desmonte. Não mais estavam aqueles que até escambar o dia, bebiam, dançavam, gargalhavam, namoravam-se e até brigavam (os loucos).

Minha cabeça não dói. Bebi, é claro que sim. Mas minha cabeça não dói. E essa estória que de bêbado não tem dono, não serve pra mim.

A praia, agora de poucos, é lustrada por um sol impenitente, e bordada pela espuma que se derrete ao quebrar das ondas, que me faz lembrar do sonrisal que tomei ontem. Faz festa à vista. Prego uma mentira pro Mestre pra ele se entreter e assim parar de regurgitar essa estória de destruição do litoral, pela elevação das marés. Digo a ele que o Super Calangão não viera conosco, pois estava num relacionamente ”dirty” com uma ricaça, que o levou numa Hilux quatro por quatro, para
Guarapari. - ela é tão rica que nem toma água, só uísque treze anos – ele ri e nem questiona os treze anos. Sei que por boas frações de horas, ele ruminará esta estória fajuta. Fico em paz pra lembrar da pândega e das pessoas que deixam as brincadeiras ainda mais divertidas na folia, fazendo assim um “upgrade" no nosso emocional.

Observo o horizonte do mar, retilíneo. Um barco de pescadores surge na cena, quase sumido e cria um ângulo de felicidade. De súbito tenho vontade de caminhar até aquele longínqüo barco. Caminhar por sobre as águas. Que doideira! Será o sonrisal? Sou apenas um comedor de feijão e às vezes de lentilha. O máximo que poderá ocorrer com uma tentativa é eu boiar, inchadão, dias depois. Milagres fazia a carteira do Meninão do Guaporé. Carteirada neles, meninão!

Não é original essa minha idéia de andar por sobre as águas, mas se imagine andando sobre um mar encapelado, ou mesmo sobre o
Rio Doce, com suas marolinhas!!! Será o sonrisal?

É, mas um camarada – conta-se e reconta-se – andou sobre um revolto mar da Galiléia. Mas ele não homem de verdade – era um Deus. Um certo Pedro quis fazer o mesmo, e até andou, mas quando lhe faltou a fé, começou a submergir feito pedra. Sorte dele que o Deus lhe estendeu a mão prontamente.

Certa feita, fiquei puto da vida com este Deus. Pedi-lhe um milagre. Queria que ele me estendesse a mão, afinal era o único Deus que tinha vez lá em casa. Pedi que aquele menininho de oito anos não morresse. Era um menino tão bom e inocente, me dava a maior moral e dançava
“dancing quen” , comigo na sala. Eu queria mesmo ser um cãozinho que pudesse comer as migalhas do banquete que caíssem da mesa daquele Deus e dos seus. Mas afundei. Não tive o milagre. Faltou-me fé? Não sei.

Tenho ponderado as coisas. Tenho visto corpos nas pistas, tragédias dantescas. O que dizer da tsunâmi? Pobre Indonésia, paraíso das desgraças.

Se este Deus teve de morrer de maneira cruel e desumana, se esse Deus teve de comer o pão que o diabo amassou com o rabo, tenho que aprender a me conformar com as vicissitudes humanas. Talvez o Deus tenha morrido e ressuscitado pra isso: nunca perdermos a esperança.

Esta estória me deixa melhor. Por isso que me alegro até quando o destino me faz encaixar a orelha no bocal sem lâmpada, da banca de caipfrutas, quando tentei me esconder da chuva, levando um choque elétrico de ver estrelinhas ao redor.

Concluo que não preciso andar por sobre as águas (literalmente). Preciso correr nesta areia. É o que tenho agora e ademais a pança está saliente...

Mas não consigo dançar sozinho na sala.

Guriri - ES, Março/2006

Ouvindo (sem dançar na sala):

ABBA - Dancing Queen



Domingo, Fevereiro 08, 2009

Walchemar vai muito bem, obrigado!

Imagem065
Walchemar 100%

O bom humor é a única qualidade divina do homem.

Sou assim mesmo, meio bobo, tipo perco o amigo mas não a piada. Também sou sujeito vexado por inteiro, talvez isso possa explicar tudo: meu contumaz  humor é para me blindar do ridículo. Isso mesmo, meto-me no invólucro da graça para proteger-me do projétil moral chamado rídico! E como sou ridículo! Assim agarro-me e aprecio coisas cômicas, amo gente com disposição de espírito para compreender que alegria não é sinônimo de vitória, e sim de viver. Viver é muito mais que vencer, é ou não é companheiro?

Conheço um camaradinha show de gente que me ajudou a compreender um pouco disso. Último sábado o encontrei no caixa eletrônico do banco. Caramba, que alegria! Frases cheias de bom humor, dizia à namorada que eu era o cara e o tornara famoso e que eu tinha muito dinheiro!

Quem sou eu Walchemar, perto de você de alegrias que dinheiro nenhum paga? Esse menino que vi tantos tristes por ter sofrido um gravíssimo acidente - como diz a bíblia: andou no vale da sombra da morte. Mas tudo isso é passado, a alegria e o bom humor de Walchemar continuam, e que seja assim para sempre. Amém! 

E que Deus me dê bom humor para esquecer que sou ridículo! Amém!


 Legião Urbana - Vamos Fazer Um Filme

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

O cão do doutor Dhigo.

"A razão de eu amar tanto o meu cachorro é porque quando chego em casa ele é o único no mundo que me trata como seu fosse 'Os Beatles'." (Bill Maher)


O Doutor Dhigo abria-se em sonoras gargalhadas, feito sanfona velha. “Pega Pretinho! Vai, pega ele! Come Pretinho! Come!”. E persistia na galhofa: “Rapaz, ele não pode ver o cheiro de fêmea. É isso, cheiro de fêmea, é por isso que ele te faz isso!” A vontade era de picar o pé naquele vira-latas – vira-latas é modo de dizer, o bicho é mesmo um poodle. Ele surgia ao ouvir o inaudível abrir do portão, feito um corisco, serelepe e vupit: Achava a minha perna. E cheio da saliência, entendia que fosse uma fêmea. Sei lá, talvez a perna fosse um fetiche sexual – coisa que gente também tem de sobra – há os que transam até com abóboras. Graças a Deus eu como abóboras sim, mas só no prato e cozida.

Perna gostosa a parte, teve um dia que o “dotô” levou o Pretinho ao veterinário. Estava um tufo ambulante – urgia uma tosa. Dhigo, meticuloso sempre, levou inclusive umas fotografias de diferentes tosas – substituiria a sempre tosa moderna, pelo estilo Leão. Feito. Porém o animal trouxera novo visual e uma profunda tristeza consigo. Parecia o fusquinha do casal de velhinhos da rua das jaqueiras – faróis baixos, lento, lento, lento... Não passava da segunda marcha. Falei “dotô o bicho quer uma feminha, é por isso que ele está deprimido”. Falei só por falar, mas achava mesmo que fosse o efeito da vacina. O dotô disse que não, e acariciando o bichinho, percebeu um ferimento – um rasgo de picotada de tesoura na anca – e era até grande para o tamanho do cachorro. Entristeceu-se muito o meu amigo Dhigo e mais ainda enraivou-se. Acho que fora a primeira vez que o vi possuído de raiva. Mas passou a ira e as tristezas do cão e do seu dono com o tempo – que é muito mais que doutor – é PhD para todos os males.

Quando o doutor encontrou a grande paixão humana da sua vida (aliás, cabe dizer que só mais uma vez notei o dotô irritado – fora vítima, no fulgor da paixão, do monstro dos olhos verdes: o ciúme, conforme romanticamente epitetou esse sentimento,
Shakespeare). Nas vicissitudes desse amor, o Dotô resolveu passar um final de semana prolongado em Mar azul. Amigos são para o que der e vier. Assim tornei-me provisoriamente o babá da peste do cão. Centos de recomendações: Nada de carne ou qualquer alimento que não seja a ração prescrita, a quantidade dosada, distribuição em horários determinados, etcetera e tal. No começo tudo bem, depois o bicho amuou, até os bifinhos suculentos ele enjeitava. Esquadrinhei cada centímetro quadrado do pêlo e tudo não pareceu melhor, pois não encontrei sequer uma pulga, que diverte tanto os cães. Por fim, fiz uma coisa que nem sei por que estou contando aqui – já que até dos pensamentos risquei – ofereci minha perna. “Vai desgraçado, você não acha isso tudo de bom?”. E ele lá, indiferente fazendo pouco caso, como se aquilo não significasse coisa alguma pra ele. Como tivesse sido apenas um “casinho” furtivo e nada mais!

Eu bem sabia o que ele queria. Não era nada sexual, não era nada que pudesse forrar o seu estômago ou apetecer suas papilas gustativas. Havia fome no coração do bicho. Ele sentira em muito a falta do dotô Dhigo. No retorno do dotô, o dengoso pareceu estar sob efeito de psicônicos. Vi um show de alegria canina. Era a efusividade em forma de cão!

O doutor, nubente, casa-se daqui a poucos dias. Já acertou o apartamento. Desconfio seriamente que apartamento não será uma boa para o Pretinho. Ele está acostumado a ficar solto num amplo quintal onde, vez por outra, abocanha um pardal ou uma rolinha distraída, às vezes se atém - reverente - ao longínquo som do trem da Vale, com a máquina ainda bem distante. Em ocasiões escapa ao abrir do portão e sai a ladrar, na tentativa insana - cabível somente a um cão - a acuar os carros que passam. No apê de Jardim da Penha não terá nada disso. Será prejudicada a sua vocação lúdica de viver. E além do mais – ao Pretinho – assim como a mim, apetece-lhe a sonoridade musical do trem, a trazer o minério das Minas Gerais para o
Porto de Tubarão. Vai ser dureza acostumar-lhe à barulheira dos aviões do aeroporto de Vitória, com rota de pousos atravessando baixo Jardim da Penha.

Se o dotô quiser, posso até ficar com o bicho. Idealizei um jeito de fazê-lo esquece-ser fácil, muito fácil do dono: Uma “feminha” bem fogosa – cheia do gás – como gosto de falar, e em dois tempos o Pretinho deixará de sentir saudades do Dhigo. Mas duvido que o dotô desista do Pretinho, dúvida reforçada depois de saber que numa escapolida do bicho, ao enfrentar um carro e se embolar debaixo do veículo, o dotô imaginando o pior, deu a prantear-se até perceber que o animal saíra ileso da ofensiva.

Mas quem sabe? E tolo é quem está cheio das certezas. O dotô não deixa de ser, do ponto de vista científico, um animal – um bicho agora casado. Pois diante da força do amor alvitre do instinto, o que restar e não acrescentar poderá ser abolido, poderá ser extinto. E morreu Maria com gosto!

Elvis Presley - My Way