Sexta-feira, Março 30, 2012

Vontade de ser bicho


Gaivotas fazem é escorregar pelo céu. Gosto de ver. Liberdade elas lembram. Mergulham no nada e tem tudo. Nem o nome “gaivota” precisam. Dá vontade de ser pássaro.

Médico e louco só um cura o outro, e acho por isso só tenho um pouco de louco para me curar sozinho. Certa vez quis me curar sem asas de um mundo com peso de pequenos problemas, medido em contas vencidas, amores perdidos, um time de pernas de pau e de gente sangrando na cidade maravilhosa. A bula estava lá, esticado como uma segunda-feira, no sofá: o gato vivendo a sua felina vida sem contrariedades – desejei ser um. Ser um gato de verdade, daqueles que miam. Daqueles, como se diz por ai: têm sete vidas – porque gato de ser bonito, isso já sou! Ser gato de me ir por aí, noites sem muros, sem escuros, ronronando a atrair gatinhas, sabendo amar até de arranhões. Ah, uma vida a bel-prazer, uma vida que se caísse em qualquer circunstância de queda, seria de pé, sem sentir a dor da falta de autoconfiança. Mas como tudo que passa, demovi-me da idéia de ser bichano. Considerei, e se me castrassem? Há gentes que são cruéis com os animais. Sabe como é, gato que não é inteiro só tem prazer em comer rato. Não quis ser gato mais... Vai que a minha dona é a Chica!

Mas não sou louco e nem vou dizer por aí que estou feliz. É que quando a gente quer ser bicho a razão já não serve mais pra nada. Então eu não li nos jornais o que disse uma criança da favela do Alemão? “Sonho é ser um pássaro e voar da favela”. Nas palavras de W. de treze anos, bastava ter tido a sorte de nascer passarinho “para poder voar para bem longe da favela”. Assim, ele se livraria da violência na Favela da Grota, no Complexo do Alemão, em Ramos. Os bichinhos, que são gente, estão desorientados, com medo. Muitos deles não querem ir para escola porque não conseguem se concentrar. “Ficam agressivos – feito bichos mesmo – deprimidos e acabam fazendo xixi e dormindo sem querer”. Bastava ser pássaro – uma gaivota – para deslizar no céu do Rio de Janeiro. E quem sabe ver a maravilhosa cidade que nunca se vê a não ser na televisão?

Não me digam que é melhor encarar a vida de cara, tête-à-tête, sem farmácia e fantasia, porque não se trata de enfrentar a vida – é a morte que se encara – não é o coitadinho do bicho papão que se tem pela frente.

Não se pode ser gente em lugar que se mata até os sonhos das crianças. Porque ser gente não existe coisa melhor. Melhor do que ser bicho que voa de bem perto para bem longe, porque gente tem sonho.

Não há nada mais belo do que ser gente na melhor acepção da palavra: gente que não rouba do erário público, que não escandaliza no senado, que não emprega parente, que não falta com o respeito. Gente que não é brega e subdesenvolvida como aqueles que puxam saco dos poderosos, aqueles que não trabalham e recebem, que xingam no trânsito, gente que não está nem aí e maltrata bichos.

Eu por mim nunca vi nada mais belo do que gente simpática que pede desculpas no trânsito e gente que dá bom dia pro porteiro. Eu fico apaixonado e feliz uma semana inteira e até mais quando vejo gente assim de verdade.

Para os que ainda não são, abraço do amigo urso!



♪ Gosto de ouvir isso: I'll Fly With You (Acustico)

Sagi-Rei - I'll fly with you

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

Mascaras


Palavras são o quanto se quiser,

Se diz de qualquer maneira

Às vezes se diz para não dizer.

Achei fidalga uma pessoa de sorriso e descalça,

Porque me disse boa sorte com os olhos.

Bom dia, boa noite, parabéns também se joga fora,

Mas Deus nunca morre.

Sempre se tem uma boa lembrança

Para quando se está cansado.

Em alguma rua, algum bar, alguma casa,

Haverá quem sinceramente fale de mãe.

Por vezes é difícil acordar,

A noite parece para sempre,

Porque em teatro não se chora de verdade,

Finge-se que está chorando.


Terça-feira, Março 29, 2011

Insensato coração

Arte: John Smith
Quem amo ri a felicidade
E isso quase me faz chorar
E minha Alma aparece nua
E isso quase me faz chorar

E nem sei bem que horas são para acordar cedo e ver uma nova cor
E se não acordar também pro céu vou
Porque meus olhos esticam para além da rua
E minha alma aparece nua
E isso quase me faz chorar

Nem sei bem que horas são, porque quem amo ri a felicidade
e isso quase me faz chorar
E minha alma aparece nua
E isso quase me faz chorar.
Poque quem amo me ri em felicidade.
Ah, sou sem fome e nem de frio!
E minha alma é toda nua coberta de todo
Ah, me chame assim de criança como sou criança e nem sei ...

Caetano Veloso - Nosso Estranho Amor

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Gentílico colatinense.


Chegamos. Tarde quente. Janeiro. Mormaço. Os raios do impenitente sol reverberavam à pista da grande ponte esticada pelos oitocentos metros que unem os dois lados da cidade. Meu pai trouxe um sonho de dias melhores, partilhado com toda a família, e também o rádio, um dos seus poucos entretenimentos. Estávamos todos como crianças, embevecidos com o lugar e com a possibilidade de tomarmos coca-colas geladas, toda a semana.

Pelo lado norte, por onde chegamos, vim saber anos mais tarde, tivera o nome de Francilvânia. Fora comunidade liderada por tal senhor França, um engenheiro que demarcara a sua colônia entre a barra de dois rios, comunidade que não vingaria aos ataques dos Botocudos – índios que resistiram tenazmente à invasão ao seu habitat natural. Mas a semente da cidade estava irremediavelmente plantada e os Botocudos logo seriam dizimados e reduzidos a relatos sobre índios perigosos e a
gravuras, como as de Jean Baptiste Debret, que afirmavam a "condição miserável e cruel, e a insensibilidade dos indígenas para concorrer na melhoria da humanidade". Não importava mais o que se passou, Francilvânia semente, floresceu o bairro São Silvano – certamente que não sem muita luta de seu povo – para compor a parte norte da cidade.

Guardo tão bem comigo os detalhes mínimos da nossa chegada àquela cidade. O Rio Doce manso a um todo sol, a ponte Florentino Ávidos dando passagem a apressados Opalas Comodoro, aos Dodges, aos Fiats 147, às Brasílias, às Variants, aos Fuscas... As placas nos bares anunciavam Cola-Cola e
Graphete. Das fotografias daquele dia, a mais perfeita na lembrança foi a do Cristo, de braços completamente abertos, posto em estátua branca, de corpo inteiro, com mais de trinta metros, cravado no cimo do morro do lado sul – era aquilo um prato cheio para alimentar a nossa esperança para com aquela cidade e com o novo ano de setenta e sete. Era certo que amanheceriam dias dourados.

O tempo passou e até somos felizes...
É lógico que a vida em qualquer lugar do mundo é com todo o chão à nossa volta, coberto ou não de areia, é uma arena que desprende grãos aos ventos revoltos, e se quisermos continuar a enxergar lirismos – e é bem certo – faz-se necessário muitas vezes fecharmos os olhos num raio de muitos metros para que não se cegue o coração. Só então os ombros sentem mais leve o fardo – até nos entardeceres.

Assim, daquele ano de setenta e sete em que meu pai ouvia em seu motorádio a canção “Marcas do Que Se Foi” - dali em diante aquela cidade de nome engraçado, que é a princesa do norte capixaba, fortificou-se demasiadamente em mim, e por mais que ande pelo mundo afora, conheça as capitais e seus faustos, e mesmo que nem goste tanto mais de cola-cola, quando chego pela BR 259, ao avistar as águas do Rio Doce, tenho em mim a deleitosa sensação de não ser despovoado comigo, porque o meu encantamento é de primeiro grau por esse rio, por essa cidade, por essa gente, por essa vida.

Com vocês, meu amigo 
Zé Geraldo - Rio Doce

Terça-feira, Março 17, 2009

Um homem qualquer

"Felicidade se acha é em horinhas de descuido."
Guimarães Rosa

O homem estava de olhos perdidos na tela do computador, viu que era preciso espairecer lá fora, por corredores e pátios afora. Saiu. O estupor de calor que sentiu quando deixou pra trás a sala refrigerada não arrefecia a espécie de dor que congelava a sua alma e quase o paralisava. Viu uns e outros e esboçava um sorriso obrigatório. Tudo pesava as medida de uma grande angústia.

A mulher que cuidava de fazer limpeza do corredor – tudo indicava ser sua amiga – pediu-lhe um abraço. Abraçaram-se incomum. Ele se apertava às carnes fofas dela longamente. Falaram-se. Ela contou-lhe de câncer e de enterros e do fardo de doenças e falou também de gente impiedosa. Ele foi ouvidos. Disse apenas que era a vontade de Deus. “Ele sabe o que faz”. Ela assentiu e agradeceu pelo abraço. Ele continuou pátio afora padecendo dos infortúnios do desamor, sentindo-se numa ilha distante e fria, mas bem nos trópicos, no coração do país. Viu ao longe o que pareceu uma garça voando alta e placenta rio abaixo, acima do ângulo de visão que seus olhos estiveram naquela tarde - era de uma brancura que ele pensara que nunca vira antes. Ele nem percebeu que no voo da garça havia um céu plúmbeo ao fundo. A garça voava num dia sem sol.

O Homem viu graça na sua dor emocional. Ele era um homem qualquer!



Radiohead - No Surprises